Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Veredinha do Sertão

September 24, 2014

Hoje li um trecho lindo do clássico de Guimarães Rosa:

Ao tanto com o esforço meu, em esquecer Diadorim, digo que me dava entrante uma tristeza no geral, um prazo de cansado. Mas eu não meditava pra trás, não esbarrava. Aquilo era tristonha travessia, pois então era preciso. Água de rio que arrasta. Dias que durasse, durasse; até meses. Agora, eu não me importava. Hoje, eu penso, o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia, mas em certos modos, rodando em si mas por regras. O prazer vira medo, o medo vira ódio, o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade… -; ai, outra esperança já vem… Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino.

A leitura é uma travessia. Quanto tino!

Salve salve este Brasil atrasado.

May 29, 2014

Ano passado, já tinha expressado a minha responsabilidade parcial pelos motivos de tantos terem ido às ruas reclamar. Mas, em vista do sórdido debate pré-copa e pré-eleitoral, preciso reiterar:

Andamos irresponsáveis. Há uma crise generalizada. Taxistas e empresários, jovens e velhos. Todos muito malandros. Todos muito otários.

A Internet tem desperdiçado tempo em conversas surdas e rasas. Completamente vazias de encontro. O debate mal feito no comentário. Acreditamos que nossas tarefas e nossos problemas terminam no botão “enviar”.

Não me dou o luxo de considerar-me melhor do que os sistemas econômicos e políticos dos quais faço parte. Dialogo com eles. É o que posso. E relativamente simples: dizer bom dia, ajudar quem precisa, ser gentil sem discriminar classe, raça, gênero, preferência sexual, pensar no voto, no meio ambiente, nas pessoas à volta.

Procuro maneiras mais justas de fazer as coisas. Do transporte ao trabalho, do chuveiro à saúde. E, apesar de compartilhar os pensamentos com amigos ou desconhecidos. Tudo começa dentro. Desconfio de quem conta demais com a chegada de qualquer messias. Os ianques não irão nos salvar, nem os russos, nem o supremo tribunal, nem a mudança para os EUA.

Não acredito em ascetas. Acho ótimo que o Marcelo Freixo beba Coca-Cola. Também não simpatizo com heróis, por que não acredito em monstros. Ambos se confundem! Quem é a aberração? O justiçado no poste, ou o justiceiro que prende e lincha? Nem todos os gatos são pardos, mas todos tem direito à embargos infringentes, se essa for a lei. Que isso fique claro.

Dirceu não é herói e Cabral não é monstro. São pessoas. Frágeis e falhos como todos nós. Merecem a justiça democrática, não o julgamento e a raiva dos botequins. Então, para que não morra por linchamento mais nenhum inocente nos cantos do nosso país, cuidado com a porra da retórica. Cuidado com a porra da retórica. Estamos conversados?

Que cada um faça as pazes com o seu monstro e seja herói de si mesmo. Fica a prece.

Me responsabilizo. Tenho problemas. Estou errado na maioria das vezes. E o pior: ando solitário. Pessoa disse que nunca tinha conhecido “alguém que tivesse levado porrada”. Eu sigo com a sua pergunta: “onde é que há gente nesse mundo?”. Meus caros “campeões em tudo”, vamos vestir nossas infâmias. Vamos ser gente. Nos libertaremos.

Um estudo

February 23, 2014

Os judeus podem ter as opiniões que quiserem, inclusive os honorários. Não conheço tarefa mais complicada e fadada ao fracasso do que querer desenhar fronteiras intelectuais para o povo judeu, famoso por sua criatividade e pluralidade de pensamento há mais de 3000 anos.

Podemos estar atacando os judeus que fazem parte do PSOL, os ultra-ortodoxos, os reformistas, os chassídicos… No fim, recriamos posturas que relembram muitos episódios lamentáveis, onde grandes nomes, desde Freud a Espinoza, de Nachman de Bretslav a Baal Shem Tov, foram brutalmente antagonizados. Inclusive, em alguns casos, submetidos a violentos e humilhantes processos de excomunhão dos quais nos envergonhamos até hoje.

É costume judaico dividir os debates entre os que são “le shem shamaim” (em nome dos céus) e os que não são. Vamos aproveitar a oportunidade e lermos o original:

“Toda a discórdia feita em nome dos céus está destinada a permanecer; toda aquela que não é feita em nome dos céus, a desaparecer…” (Pirkei Avot, 5:17.)

A história acaba nos demonstrando quais debates perduram e quais desaparecem. Quais visões agregam e quais segregam. Nos dias de hoje, torna-se muito difícil ser pluralista no mundo do Facebook. Costuma ser mais fácil o contrário, e fazer um debate reativo, polarizado – e usar a polêmica como tônica do jornalismo.

Porém, apesar do poder incrível do Google, tive uma dificuldade impressionante em achar o nome dos 6 rabinos que expulsaram Spinoza, ou dos que criaram decretos semelhantes contra dissidentes e pensadores.

Para nos aproximarmos à discussão em torno do Estado de Israel, Martin Buber, um filósofo muito querido ao povo judeu, dedicou parte da sua vida a uma campanha por um estado bi-nacional onde hoje é o Estado de Israel. Apesar da proposta estar meio fora de moda, não imagino que muitos o considerem anti-semita.

A discussão em nome dos céus se dá no seio do respeito, da liberdade de pensamento, do comprometimento, da confiança e do amor. E não no seio do oportunismo, do antagonismo raivoso, da desmoralização e da difamação.

Para ilustrar, termino com um conto rabínico:

“Um Rebbe foi informado por um de seus discípulos que, de acordo com a visão de Spinoza, não haveria diferença básica entre seres humanos e animais. O Rebbe respondeu: neste caso, por que os animais nunca produziram um Spinoza?”

Dedico este estudo aos meus conhecidos que militam no PSOL. Shavua tov a todos vocês.

Dos fracassos,

February 4, 2014

poste

A foto acima nos atormentará por muitos anos. Talvez se converta em estátua em algum momento: lembrança e prova da banalidade recorrente de uma catástrofe histórica. Ao preto, o poste. Ao pobre, o pelourinho, a força, a lição. Aos bacharéis, a altura de sua ética, de sua educação.

O ideário liberal do século XVIII visava estender o arquétipo do irmão ao nacional. No gasto e envelhecido trinômio da revolução francesa, o conceito (antes religioso), era ampliado, reformado, e usado para a criação da nação. O liberalismo se apropriou dessa idéia religiosa para colocar nas mãos do Estado laico toda a mediação social. O policiamento, as leis, o poder judiciário, legislativo e executivo, o mercado, todos seriam submetidos ao jugo do Estado. E “o poder dado ao povo”, a democracia,seria o lastro ético e humanista.

Coube aos céticos perceber que essa proposta de uma sociedade burguesa não seria uma sociedade composta apenas de burgueses. As contradições sociais se impuseram e os mecanismos de socialização fracassaram em larga escala em minimizar a violência. A sociedade teve de criar estratificações e exportar pobreza para manter o nível de consumo interno e a rentabilidade dos investimentos. O “disposable income”, tão querido pelos estudiosos do consumo, tem em sua tradução uma ironia preciosa: é descartável. O que eu descarto, poderia ser usado para socorrer meu irmão.

Eu tenho irmãos. É muito fácil quando seu irmão é um empresário bem sucedido, bem resolvido. O difícil é quando ele está doente, confuso, lidando com problemas pequenos ou gigantescos. Dá trabalho, mas fazemos o que podemos.

A moral familiar, em muitos casos, leva à ação, tende à reconciliação, enquanto os vínculos nacionais fracassam incessantemente, inclusive muito aquém dos vínculos religiosos.

E nem começaremos a falar em uma consciência de espécie.

De qualquer forma, não é preciso consultar um quadro estatístico para verificar que o senso de responsabilidade com o outro, inclusive dentro das nações, é pífio. A irmandade da revolução francesa resultou numa falácia. E ainda temos que lidar com grupos políticos hidrofóbicos que pretendem estabelecer uma order social darwinista e burra através da violência.

Ignoramos o fato de que um ser humano é um animal que não sobrevive sem uma estrutura social e que toma pelo menos 15 anos para adquirir uma independência mínima, quanto mais valores e educação. Isso não é socialismo, é biologia.

Tentar retirar do ato criminoso o contexto histórico e psicológico pelo qual ele foi produzido é uma afronta a qualquer intelecto. E tentar justificar que, do ponto de vista do investimento, violentar, trancar ou assassinar o criminoso é a solução mais interessante em detrimento de um processo (mesmo que desesperado) de re-socialização, é uma atitude desprovida de qualquer motivação racional, quanto menos ética.

 

Sem Título

November 20, 2013

Acho que os sentimentos que tenho visto tanto na mídia quanto nas opiniões dos mais bem informados camaradas aqui nas redes sociais me apontam para uma grande tragédia.

Chegamos a um discurso que beira o irreconciliável. E é essa constatação, de que o desencontro entre o discurso das duas maiores forças políticas do Brasil é profundo e grave, que nos aponta para problemas mais perigosos do que parecem.

A objetividade dos fatos nos escapa. Não tenho dúvida de que o objeto da Ação Penal 470 está sendo e será transformado e desfigurado ao infinito até que se torne um buraco negro – um Watergate brasileiro.

Por um lado vejo o júbilo e a raiva emaranhados em muitos moralismos, resistências e revanches e é esse sentimento específico que me preocupa. Se trata da mais pura matéria prima dos golpes. E o feitichismo que alimenta essa narrativa é o pior perigo. Acreditar em colorações absolutas, em processos e caráteres infalíveis, em uma realidade objetiva e não construída pelas sempre imperfeitas lentes humanas nos rouba uma humildade extremamente necessária nos nossos frágeis tempos.

Talvez fosse mais saudável permanecermos mais quietos, menos certos e mais envergonhados. Onde optássemos por uma delicadeza ao invés da polarização automática num debate que envolve a remoção de direitos civis e humanos.

Os condenados são dirigentes de um dos maiores partidos políticos do país. Queiram ou não queiram, são representantes importantes do povo que os colocou ali. Acreditar que são a pura escória é a mesma distorção de achar que sejam infalíveis. São gente, são cidadãos e devem ser tratados dessa forma antes de qualquer outra coisa.

E se o são, começamos a notar que a nossa maneira de perceber e intervir no mundo não tem espaço pra gente. Tem espaço para justiceiros e vigaristas, mocinhos e bandidos, super-heróis e vilões.

Nossas prisões não são feitas pra gente. Nossa polícia não é feita pra gente. Nossas escolas não são feitas pra gente. Nossa imprensa não é feita pra gente. Nossas opiniões não são a respeito de gente.

Na privacidade dos nossos sofás, tecemos comentários tenebrosos sobre pessoas que nunca conhecemos. Repetimos de boca cheia o que recebemos de terceiros e participamos docilmente na polarização de um debate político. Nunca o faríamos da mesma forma se tivéssemos diante de nós a presença do outro disposto a ouvir e contrapor.

Estamos cada vez mais enfurnados, cada vez mais ensimesmados, cada vez mais donos da razão. E, apesar de dessa agenda da reconciliação ser o onipresente clichê, ela me parece extremamente importante nesse momento.

2014 se aproxima e será péssimo para o país dividir-se dessa maneira moralista, transformando o debate sobre o futuro numa recapitulação criminal do passado. Será uma perda sem precedentes.

Nos dividiremos cada vez mais entre “certos” e “errados” e a radicalização dessa idéia nos tornará cada vez mais incompreensíveis um para o outro.

“Quem sabe que nem tudo que vê é o que é, de algum maneira, vê o que não vê”. Ignorarmos que nossas certezas tem limites. Abandonarmos nossa capacidade de ver através dos outros. Essa, meus amigos, é a tragédia da nossa cegueira.

Consumo e Política

September 30, 2013

Vejo cada vez mais as pessoas lidando com a cidadania como se ela fosse consumo. Os slogans quantitativos dos comerciais na televisão extrapolam para os cartazes da rua: “Mais saúde pra você!”

Uma estrutura complexa, educativa faz assimilar o comportamento do mercado desde crianças e aprendemos a esperar retornos “eficientes” de nossas compras. O garçom deve ser educado, o chef bem treinado, o motorista pontual, o bancário preciso, o cozinheiro bem limpo… Absorvemos uma noção de justiça ensinada pelas campanhas de direitos do consumidor e pelos contos astutos de quem fez um bom investimento.

O mercado tem um papel. Sempre teve e terá. Mas é ingênua a noção, de qualquer ciência, de pretender abarcar a totalidade do ser humano a partir de sua lente. A noção de homo economicus será sempre um belo queijo suíço, com vácuos inexplicáveis.

Enquanto a compreensão é livre, as consequências éticas e políticas desta compreensão merecem a atenção. Igualar cidadania e consumo é fatal para a vida. Estabelece que a atitude deve depender de estímulos racionalmente egoístas. E temos visto a incapacidade dessa ideologia resolver os problemas mais graves de nosso tempo.

Quando lidamos com a realidade sob o prisma do consumidor, removemos todos os resquícios de nossa influência sobre ela. Estamos sentados esperando que a vida nos seja entregue num bonito prato porque estamos pagando caro.

Mas a vida não se dá sob esses termos. Tampouco a política. Dessa forma estabelecemos com a democracia uma relação de absolutamente esquizofrênica de alteridade onde estamos todos perfeitamente certos. Os graves problemas do mundo são culpa dos “outros”, do “sistema”, etc.

Uma consequência clara da influência do consumismo no processo político. Poucos se dedicam a criar. Ninguém admite seus erros. Há uma endemia de falta de responsabilidade.

Se temos um mundo imperfeito. O primeiro passo é entender que há algo de errado com nós mesmos. E partir para o trabalho, para a calma e para o remendo.

E Deus queira: sandálias da humildade para todos nós.

Fraturas

August 14, 2013

Morreu uma multidão no Egito. Um exército potente, pelo visto, atacou seus desafetos com rigor e condenou à morte mais gente pelo crime, imperdoável, de terem nascido – como sempre.

E já começamos a ver o abuso (vamos evitar a palavra uso, nesse caso) da morte para os propósitos políticos. Disputa-se os números de mortos como se fossem uma moeda de troca. Morreu mais gente, estamos certos, morreu menos gente, fomos sensatos.

Absurdos em cima de absurdos. Quando na verdade, desses atores, só seria apropriado o silêncio. Uma morte apenas, que seja, de causa política é uma óbvia tragédia. Quantificar também se torna inviável. Imagine medir o que está acontecendo.

Só aceitaria o silêncio dessa sociedade que minha família abandonou há décadas, por ser a única resposta digna ao seu fracasso. Como uma criança que se descobre má quando é surpreendida com o dedo na tigela. E aí é tempo de refletir, de pensar e de, certamente, não repetir.

Mas não é o que passa. Continuo vendo as vontades políticas prevalecendo, mais uma vez nesse país, sobre a vida. Minha mãe era uma criança quando foi expulsa de sua casa e, ao ver esse horror, posso até considerá-la sortuda.

Foi expulsa com todos os judeus do Egito quando as tensões com Israel se elevaram a um nível insuportável entre os dois países. As lideranças políticas (de ambos os lados) e suas agendas prevaleceram sobre as vidas de crianças: a pequena Rachel, o menino Albert, a indefesa Lisa, a pequena Lídia, e Haim, que nasceu estrangeiro no Brasil. E não me atrevo a tentar sentir algo além disso. Seria insuportável.

O que consigo ver é a péssima influência da cultura política ocidental no mundo árabe e suas consequências catastróficas. O ceticismo político aliado a um Estado que está para ser tomado vai empilhando tragédias e alimentados fanatismos, fraturas.

O fenômeno das ortodoxias, dos fanatismos é recente. Um historiador mais atento sabe que, da mesma forma que os reformismos foram uma consequência da influencia iluminista nas religiões, os fanatismos foram uma reação à esse fenômeno.

Rab Nachman de Bretslav ditou sua obra como resposta à revolução francesa. Espinosa foi chicoteado por ser pai dessa própria modernidade. E, entre tantos exemplos, assistimos atônitos essa conta dolorosa somar e somar.

Não que deva restringir a modernidade a seus males. Mas pretendo ser mais calmo com meu ceticismo político. Quando minha vitória política visar a morte de alguém, a remoção de alguém, o roubo de alguém, a tortura de alguém, a tragédia de alguém, enfim, a incapacidade de conviver com alguém, deverá ser o sintoma do seu equívoco.

Com menos fraturas. Assim, coisa simples, pela saúde.

Deixa eu mexer no verbo.

July 19, 2013

Venho lendo os panfletos, posts, cartazes, cantos e gritos dos últimos meses. É um verdadeiro mar de desejos que ocupa as ruas, muitas vezes de forma pacífica, muitas vezes de forma dura.

Como trabalhei por anos com redação publicitária, passei muitas horas da minha vida revendo e pensando em pequenas frases. Aprendi com grandes cabeças as minúcias de poucas palavras, a raridade de achar gemas que surgem do encontro de três verbetes do dicionário.

E nos slogans dos protestos, quando não vem o verbo querer (como em “queremos hospitais padrão fifa”) vejo sempre a repetição ensurdecedora do verbo ter. Não temos isso, não temos aquilo, não temos aquilo outro.

Fico pasmo. Ninguém admite que é mal-educado. Mas acha que tem que ter mais educação. Ninguém fala que é doente. Mas acha que tem que ter mais saúde. Ninguém fala que é corrupto. Mas acha que tem que ter mais transparência. E isso é gravíssimo aos olhos de um redator como eu, que entende o tipo de distância estabelecida nesse discurso.

Vamos nos retirando da nossa realidade com esse afastamento. Viramos meros pedintes de um Estado que tem que nos dar. E transferimos aos outros (os “ricos”, a classe política, etc) a responsabilidade pela nossa prática. É uma formulação infantil, perigosa e anti-democrática; que com certeza enfraquece os participantes desses movimentos como sujeitos.

Enquanto querer ter saúde não significar querer ser mais saudável, enquanto querer ter mais educação não significar querer ser mais lúcido, enquanto querer ter mais participação não significar querer ser mais engajado, essas críticas irão e virão como obras públicas abandonadas depois das épocas de eleição.

O que está a nosso alcance imediato é a nossa prática. Já advoguei nesse blog por uma política mais subjetiva e por uma auto-crítica, mas custa pouco repetir.

Por uma política mais subjetiva.

July 17, 2013

Hoje o Lula publicou no New York Times. Nem li. Mas como talentoso político que é, transformou os protestos do inverno brasileiro em perfeitas consequências do brilhantismo do seu governo. E isso gerou uma avalanche de gritarias.

É bom que fique bem claro que Luis Inácio Lula da Silva é o presidente mais popular nos 124 anos da nossa República, ultrapassando Getúlio Vargas por uma margem. Não é nada surpreendente que seus opositores tenham a maior dor de corno da história; que a crítica (presente há uma década nas mesas fartas dos belos salões e nas capas horripilantes da Veja) tenha uma contundência especial; que as caricaturas sejam monstruosas, como nunca esquecerei a capa do supracitado semanário com as cabeças de Trotsky, Marx e Lenin fazendo parte da mesma monstruosa hidra.

Faço questão de denunciar essa distorção há anos e que me parecia uma irresponsabilidade do ponto de vista jornalístico e que me fez esquecer essa imprensa de uma vez por todas. Como estudante de propaganda, eu já conhecia muito bem o meu trabalho para aceitá-lo como jornalismo. Por mais que sejam bem-intencionados os críticos do regime, não assumir a identidade política abertamente, não dizer em claro e bom tom o que se pensa, e transfigurá-lo como apenas “informação”, é falta de caráter. Essa prática é sintoma claro da crise ética e midiática no Brasil.

E essa crise se apresenta quando temos que escutar os amigos não entenderem como “pessoas estudadas e inteligentes” ainda apoiam uma idéia política ou outra. Completamente estapafúrdio. A política, apesar de ser permeada por muitos dados objetivos, é crença. Repito: é uma crença. Beira as margens do religioso e é baseada em sensibilidades e trajetórias absolutamente pessoais. Tentar provar que o Lula é isso e que o FHC é aquilo por A+B é superficializar a discussão. E sugerir que apoiar tal coisa ou outra é “falta de inteligência” é de uma ingenuidade desrespeitosa.

Tentar fazer de uma discussão entre pessoas uma discussão entre “hard facts” é bobo. Simples assim. É fingir que não se vê que pessoas que tomam medidas, que são pessoas que compilam estatísticas e que mesmo a Matemática – mãe suprema de toda precisão – muda completamente a cada 50 anos.

Somos sempre pessoas conversando. Que tal começarmos a prestar atenção um no outro?

As “Primaveras” e as Mídias Sociais

June 11, 2013

uma reflexão política e antropológica

 

O CAUSO

Nunca vou me esquecer do dia em que encontrei um egípcio numa festa em Amsterdam. Ele vinha visitar um outro amigo que iria participar do mesmo programa de pós-graduação que eu. E como se tratava da festa de despedida da turma anterior, resolveu se juntar à celebração.
Costumo ter facilidade com egípcios em geral. Digo que minha mãe é egípcia (minha mãe nasceu no Cairo) e rapidamente passamos a conversar sobre comida e palavrões. Obviamente omito o fato de que minha família materna foi expulsa por serem judeus, e também meu judaísmo, porque, afinal, tento sempre começar com o que temos em comum.
Naquele dia específico a estratégia ia bem e eu tinha muitas dúvidas sobre o Egito. Era o fim da primavera de 2011 e eu andava assustado com a violência que acontecia no país do meu mais novo conhecido. E perguntei: Lhe questionei, cauteloso, sobre como se sentia de seu país estar em alvoroço.
Eu imaginava uma série de reações: talvez um orgulho esperançoso, quem sabe um pouco de consternação por conta da violência, mas o que eu recebi me surpreendeu completamente.
Ele me disse, como quem me ameaçasse: “Você sabe, no Egito, se mexer com a gente, o negócio fica doido… Sangue escorre pelas ruas…”
Olhei ao meu entorno. Estávamos em Amsterdam, a capital da tolerância européia, onde meu colega podia usufruir de inúmeras liberdades civis e sexuais permitidas pelo seu (provável) privilégio de poder arcar com uma passagem aérea. Fiquei olhando aquilo tudo: a cerveja geladinha que ele segurava na mão, as meninas com as quais ele flertava (sem muito talento, vou confessar), o clima cosmopolita entre nossos amigos de todos os cantos do mundo…
E ele me olhava como se os embates sangrentos com a polícia fossem o melhor dos mundos. Como se a brutalidade e a irracionalidade em massa fossem motivo de orgulho. Tinha um quê de “cuidado comigo”.
Eu tive que responder. Disse: “Pois é, eu prefiro a vida num país como a Holanda, tolerante.” Aqui, se você for violento, vai preso pelo resto da vida.” E, claro, olhei nos olhos da fera.

QUESTIONAMENTOS

Esse momento me trouxe uma variedade de questionamentos. A começar pelo fato do árabe ter se transformado em vítima de seu próprio esteriótipo. Os video games de tiro com suas equipes bem definidas e os filmes de mocinhos anglo-saxãos procurando árabes cruéis acabam assimilados por essa população que encontra, mesmo que absurdamente, na violência uma válvula de escape para um orgulho humilhado.
Depois disso, me veio à mente a relação de fetiche desse indivíduo com a violência em sua cultura. Nosso colega não era um brutamontes. Pelo contrário, do pouco que me lembro, era um rapaz de óculos e um pouco acima do peso. Nas ruas de São Paulo não significaria nenhuma ameaça à pessoa alguma. Mas, ao meu lado, ele se sentia a personificação da ameaça perfeita. Bastava eu mexer com o seu lado “passional”,”bárbaro”. Isso lhe dava um prazer quase infantil.
Esse é o real risco de quando fundamentalismo religioso transborda para a mundo da política. Sabemos que o paradigma da fé estabelece um limite para a razão, mas quando misturamos a fé com o Estado, estamos correndo o risco de revisitarmos inúmeros preconceitos e uma violência que acreditávamos extinta há 500 anos.
Também percebi o quanto o meu amigo se aproveitava de um paradoxo de relativismo cultural para “estabelecer” o seu “barbarismo”. Sabia que estava em Amsterdam, entre gente educada, e que poderia falar o que quisesse sem ser reprimido.
O que ele não imaginava é que tinha outra pessoa de origem árabe ali, pronto pra contestar a atitude dele.
Ele ficou ofendido com o meu comentário. Eu, que na cabeça dele era outro árabe, tinha deslegitimizado o orgulho dele. Tinha interrompido o prazer dele de ser violento. A conversa esfriou e fomos cada um para o seu canto.

E O TWITTER COM ISSO?

Ando lendo bastante sobre os acontecimentos na Turquia. Tenho uma análise rasa, para ser sincero. Mas uma coisa eu acho que posso dizer a partir do encontro com aquele egípcio em Amsterdam:

Em uma população antagonizada pelo ocidente como o mundo árabe/muçulmano, aberta às mais diversas manifestações violentas por conta de precedentes culturais (sem entrar no mérito deles), explorada por séculos por regimes abusivos e totalitários, não é de se assombrar que as mídias sociais sejam como fogo de palha para esse protestos.

Vê-se a facilidade com a qual essas primaveras acontecem. A população se mobiliza com facilidade ímpar. Duas primaveras depois, falta saber se um dia veremos as flores ou se ficaremos só com a chuva de sangue.