Um estudo

Os judeus podem ter as opiniões que quiserem, inclusive os honorários. Não conheço tarefa mais complicada e fadada ao fracasso do que querer desenhar fronteiras intelectuais para o povo judeu, famoso por sua criatividade e pluralidade de pensamento há mais de 3000 anos.

Podemos estar atacando os judeus que fazem parte do PSOL, os ultra-ortodoxos, os reformistas, os chassídicos… No fim, recriamos posturas que relembram muitos episódios lamentáveis, onde grandes nomes, desde Freud a Espinoza, de Nachman de Bretslav a Baal Shem Tov, foram brutalmente antagonizados. Inclusive, em alguns casos, submetidos a violentos e humilhantes processos de excomunhão dos quais nos envergonhamos até hoje.

É costume judaico dividir os debates entre os que são “le shem shamaim” (em nome dos céus) e os que não são. Vamos aproveitar a oportunidade e lermos o original:

“Toda a discórdia feita em nome dos céus está destinada a permanecer; toda aquela que não é feita em nome dos céus, a desaparecer…” (Pirkei Avot, 5:17.)

A história acaba nos demonstrando quais debates perduram e quais desaparecem. Quais visões agregam e quais segregam. Nos dias de hoje, torna-se muito difícil ser pluralista no mundo do Facebook. Costuma ser mais fácil o contrário, e fazer um debate reativo, polarizado – e usar a polêmica como tônica do jornalismo.

Porém, apesar do poder incrível do Google, tive uma dificuldade impressionante em achar o nome dos 6 rabinos que expulsaram Spinoza, ou dos que criaram decretos semelhantes contra dissidentes e pensadores.

Para nos aproximarmos à discussão em torno do Estado de Israel, Martin Buber, um filósofo muito querido ao povo judeu, dedicou parte da sua vida a uma campanha por um estado bi-nacional onde hoje é o Estado de Israel. Apesar da proposta estar meio fora de moda, não imagino que muitos o considerem anti-semita.

A discussão em nome dos céus se dá no seio do respeito, da liberdade de pensamento, do comprometimento, da confiança e do amor. E não no seio do oportunismo, do antagonismo raivoso, da desmoralização e da difamação.

Para ilustrar, termino com um conto rabínico:

“Um Rebbe foi informado por um de seus discípulos que, de acordo com a visão de Spinoza, não haveria diferença básica entre seres humanos e animais. O Rebbe respondeu: neste caso, por que os animais nunca produziram um Spinoza?”

Dedico este estudo aos meus conhecidos que militam no PSOL. Shavua tov a todos vocês.

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