Dos fracassos,

poste

A foto acima nos atormentará por muitos anos. Talvez se converta em estátua em algum momento: lembrança e prova da banalidade recorrente de uma catástrofe histórica. Ao preto, o poste. Ao pobre, o pelourinho, a força, a lição. Aos bacharéis, a altura de sua ética, de sua educação.

O ideário liberal do século XVIII visava estender o arquétipo do irmão ao nacional. No gasto e envelhecido trinômio da revolução francesa, o conceito (antes religioso), era ampliado, reformado, e usado para a criação da nação. O liberalismo se apropriou dessa idéia religiosa para colocar nas mãos do Estado laico toda a mediação social. O policiamento, as leis, o poder judiciário, legislativo e executivo, o mercado, todos seriam submetidos ao jugo do Estado. E “o poder dado ao povo”, a democracia,seria o lastro ético e humanista.

Coube aos céticos perceber que essa proposta de uma sociedade burguesa não seria uma sociedade composta apenas de burgueses. As contradições sociais se impuseram e os mecanismos de socialização fracassaram em larga escala em minimizar a violência. A sociedade teve de criar estratificações e exportar pobreza para manter o nível de consumo interno e a rentabilidade dos investimentos. O “disposable income”, tão querido pelos estudiosos do consumo, tem em sua tradução uma ironia preciosa: é descartável. O que eu descarto, poderia ser usado para socorrer meu irmão.

Eu tenho irmãos. É muito fácil quando seu irmão é um empresário bem sucedido, bem resolvido. O difícil é quando ele está doente, confuso, lidando com problemas pequenos ou gigantescos. Dá trabalho, mas fazemos o que podemos.

A moral familiar, em muitos casos, leva à ação, tende à reconciliação, enquanto os vínculos nacionais fracassam incessantemente, inclusive muito aquém dos vínculos religiosos.

E nem começaremos a falar em uma consciência de espécie.

De qualquer forma, não é preciso consultar um quadro estatístico para verificar que o senso de responsabilidade com o outro, inclusive dentro das nações, é pífio. A irmandade da revolução francesa resultou numa falácia. E ainda temos que lidar com grupos políticos hidrofóbicos que pretendem estabelecer uma order social darwinista e burra através da violência.

Ignoramos o fato de que um ser humano é um animal que não sobrevive sem uma estrutura social e que toma pelo menos 15 anos para adquirir uma independência mínima, quanto mais valores e educação. Isso não é socialismo, é biologia.

Tentar retirar do ato criminoso o contexto histórico e psicológico pelo qual ele foi produzido é uma afronta a qualquer intelecto. E tentar justificar que, do ponto de vista do investimento, violentar, trancar ou assassinar o criminoso é a solução mais interessante em detrimento de um processo (mesmo que desesperado) de re-socialização, é uma atitude desprovida de qualquer motivação racional, quanto menos ética.

 

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