Sem Título

Acho que os sentimentos que tenho visto tanto na mídia quanto nas opiniões dos mais bem informados camaradas aqui nas redes sociais me apontam para uma grande tragédia.

Chegamos a um discurso que beira o irreconciliável. E é essa constatação, de que o desencontro entre o discurso das duas maiores forças políticas do Brasil é profundo e grave, que nos aponta para problemas mais perigosos do que parecem.

A objetividade dos fatos nos escapa. Não tenho dúvida de que o objeto da Ação Penal 470 está sendo e será transformado e desfigurado ao infinito até que se torne um buraco negro – um Watergate brasileiro.

Por um lado vejo o júbilo e a raiva emaranhados em muitos moralismos, resistências e revanches e é esse sentimento específico que me preocupa. Se trata da mais pura matéria prima dos golpes. E o feitichismo que alimenta essa narrativa é o pior perigo. Acreditar em colorações absolutas, em processos e caráteres infalíveis, em uma realidade objetiva e não construída pelas sempre imperfeitas lentes humanas nos rouba uma humildade extremamente necessária nos nossos frágeis tempos.

Talvez fosse mais saudável permanecermos mais quietos, menos certos e mais envergonhados. Onde optássemos por uma delicadeza ao invés da polarização automática num debate que envolve a remoção de direitos civis e humanos.

Os condenados são dirigentes de um dos maiores partidos políticos do país. Queiram ou não queiram, são representantes importantes do povo que os colocou ali. Acreditar que são a pura escória é a mesma distorção de achar que sejam infalíveis. São gente, são cidadãos e devem ser tratados dessa forma antes de qualquer outra coisa.

E se o são, começamos a notar que a nossa maneira de perceber e intervir no mundo não tem espaço pra gente. Tem espaço para justiceiros e vigaristas, mocinhos e bandidos, super-heróis e vilões.

Nossas prisões não são feitas pra gente. Nossa polícia não é feita pra gente. Nossas escolas não são feitas pra gente. Nossa imprensa não é feita pra gente. Nossas opiniões não são a respeito de gente.

Na privacidade dos nossos sofás, tecemos comentários tenebrosos sobre pessoas que nunca conhecemos. Repetimos de boca cheia o que recebemos de terceiros e participamos docilmente na polarização de um debate político. Nunca o faríamos da mesma forma se tivéssemos diante de nós a presença do outro disposto a ouvir e contrapor.

Estamos cada vez mais enfurnados, cada vez mais ensimesmados, cada vez mais donos da razão. E, apesar de dessa agenda da reconciliação ser o onipresente clichê, ela me parece extremamente importante nesse momento.

2014 se aproxima e será péssimo para o país dividir-se dessa maneira moralista, transformando o debate sobre o futuro numa recapitulação criminal do passado. Será uma perda sem precedentes.

Nos dividiremos cada vez mais entre “certos” e “errados” e a radicalização dessa idéia nos tornará cada vez mais incompreensíveis um para o outro.

“Quem sabe que nem tudo que vê é o que é, de algum maneira, vê o que não vê”. Ignorarmos que nossas certezas tem limites. Abandonarmos nossa capacidade de ver através dos outros. Essa, meus amigos, é a tragédia da nossa cegueira.

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