Consumo e Política

Vejo cada vez mais as pessoas lidando com a cidadania como se ela fosse consumo. Os slogans quantitativos dos comerciais na televisão extrapolam para os cartazes da rua: “Mais saúde pra você!”

Uma estrutura complexa, educativa faz assimilar o comportamento do mercado desde crianças e aprendemos a esperar retornos “eficientes” de nossas compras. O garçom deve ser educado, o chef bem treinado, o motorista pontual, o bancário preciso, o cozinheiro bem limpo… Absorvemos uma noção de justiça ensinada pelas campanhas de direitos do consumidor e pelos contos astutos de quem fez um bom investimento.

O mercado tem um papel. Sempre teve e terá. Mas é ingênua a noção, de qualquer ciência, de pretender abarcar a totalidade do ser humano a partir de sua lente. A noção de homo economicus será sempre um belo queijo suíço, com vácuos inexplicáveis.

Enquanto a compreensão é livre, as consequências éticas e políticas desta compreensão merecem a atenção. Igualar cidadania e consumo é fatal para a vida. Estabelece que a atitude deve depender de estímulos racionalmente egoístas. E temos visto a incapacidade dessa ideologia resolver os problemas mais graves de nosso tempo.

Quando lidamos com a realidade sob o prisma do consumidor, removemos todos os resquícios de nossa influência sobre ela. Estamos sentados esperando que a vida nos seja entregue num bonito prato porque estamos pagando caro.

Mas a vida não se dá sob esses termos. Tampouco a política. Dessa forma estabelecemos com a democracia uma relação de absolutamente esquizofrênica de alteridade onde estamos todos perfeitamente certos. Os graves problemas do mundo são culpa dos “outros”, do “sistema”, etc.

Uma consequência clara da influência do consumismo no processo político. Poucos se dedicam a criar. Ninguém admite seus erros. Há uma endemia de falta de responsabilidade.

Se temos um mundo imperfeito. O primeiro passo é entender que há algo de errado com nós mesmos. E partir para o trabalho, para a calma e para o remendo.

E Deus queira: sandálias da humildade para todos nós.

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One Response to “Consumo e Política”

  1. Isaac Benchimol Says:

    Está ficando melhor.
    Afirmações com opções ficam mais palatáveis…

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