Fraturas

Morreu uma multidão no Egito. Um exército potente, pelo visto, atacou seus desafetos com rigor e condenou à morte mais gente pelo crime, imperdoável, de terem nascido – como sempre.

E já começamos a ver o abuso (vamos evitar a palavra uso, nesse caso) da morte para os propósitos políticos. Disputa-se os números de mortos como se fossem uma moeda de troca. Morreu mais gente, estamos certos, morreu menos gente, fomos sensatos.

Absurdos em cima de absurdos. Quando na verdade, desses atores, só seria apropriado o silêncio. Uma morte apenas, que seja, de causa política é uma óbvia tragédia. Quantificar também se torna inviável. Imagine medir o que está acontecendo.

Só aceitaria o silêncio dessa sociedade que minha família abandonou há décadas, por ser a única resposta digna ao seu fracasso. Como uma criança que se descobre má quando é surpreendida com o dedo na tigela. E aí é tempo de refletir, de pensar e de, certamente, não repetir.

Mas não é o que passa. Continuo vendo as vontades políticas prevalecendo, mais uma vez nesse país, sobre a vida. Minha mãe era uma criança quando foi expulsa de sua casa e, ao ver esse horror, posso até considerá-la sortuda.

Foi expulsa com todos os judeus do Egito quando as tensões com Israel se elevaram a um nível insuportável entre os dois países. As lideranças políticas (de ambos os lados) e suas agendas prevaleceram sobre as vidas de crianças: a pequena Rachel, o menino Albert, a indefesa Lisa, a pequena Lídia, e Haim, que nasceu estrangeiro no Brasil. E não me atrevo a tentar sentir algo além disso. Seria insuportável.

O que consigo ver é a péssima influência da cultura política ocidental no mundo árabe e suas consequências catastróficas. O ceticismo político aliado a um Estado que está para ser tomado vai empilhando tragédias e alimentados fanatismos, fraturas.

O fenômeno das ortodoxias, dos fanatismos é recente. Um historiador mais atento sabe que, da mesma forma que os reformismos foram uma consequência da influencia iluminista nas religiões, os fanatismos foram uma reação à esse fenômeno.

Rab Nachman de Bretslav ditou sua obra como resposta à revolução francesa. Espinosa foi chicoteado por ser pai dessa própria modernidade. E, entre tantos exemplos, assistimos atônitos essa conta dolorosa somar e somar.

Não que deva restringir a modernidade a seus males. Mas pretendo ser mais calmo com meu ceticismo político. Quando minha vitória política visar a morte de alguém, a remoção de alguém, o roubo de alguém, a tortura de alguém, a tragédia de alguém, enfim, a incapacidade de conviver com alguém, deverá ser o sintoma do seu equívoco.

Com menos fraturas. Assim, coisa simples, pela saúde.

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2 Responses to “Fraturas”

  1. nanda Says:

    que texto lindo! disse, de forma poética e bonita, um monte de verdades sobre o jeito ocidental de brincar de deus no mundo árabe. parabéns, querido 🙂

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