Por uma política mais subjetiva.

Hoje o Lula publicou no New York Times. Nem li. Mas como talentoso político que é, transformou os protestos do inverno brasileiro em perfeitas consequências do brilhantismo do seu governo. E isso gerou uma avalanche de gritarias.

É bom que fique bem claro que Luis Inácio Lula da Silva é o presidente mais popular nos 124 anos da nossa República, ultrapassando Getúlio Vargas por uma margem. Não é nada surpreendente que seus opositores tenham a maior dor de corno da história; que a crítica (presente há uma década nas mesas fartas dos belos salões e nas capas horripilantes da Veja) tenha uma contundência especial; que as caricaturas sejam monstruosas, como nunca esquecerei a capa do supracitado semanário com as cabeças de Trotsky, Marx e Lenin fazendo parte da mesma monstruosa hidra.

Faço questão de denunciar essa distorção há anos e que me parecia uma irresponsabilidade do ponto de vista jornalístico e que me fez esquecer essa imprensa de uma vez por todas. Como estudante de propaganda, eu já conhecia muito bem o meu trabalho para aceitá-lo como jornalismo. Por mais que sejam bem-intencionados os críticos do regime, não assumir a identidade política abertamente, não dizer em claro e bom tom o que se pensa, e transfigurá-lo como apenas “informação”, é falta de caráter. Essa prática é sintoma claro da crise ética e midiática no Brasil.

E essa crise se apresenta quando temos que escutar os amigos não entenderem como “pessoas estudadas e inteligentes” ainda apoiam uma idéia política ou outra. Completamente estapafúrdio. A política, apesar de ser permeada por muitos dados objetivos, é crença. Repito: é uma crença. Beira as margens do religioso e é baseada em sensibilidades e trajetórias absolutamente pessoais. Tentar provar que o Lula é isso e que o FHC é aquilo por A+B é superficializar a discussão. E sugerir que apoiar tal coisa ou outra é “falta de inteligência” é de uma ingenuidade desrespeitosa.

Tentar fazer de uma discussão entre pessoas uma discussão entre “hard facts” é bobo. Simples assim. É fingir que não se vê que pessoas que tomam medidas, que são pessoas que compilam estatísticas e que mesmo a Matemática – mãe suprema de toda precisão – muda completamente a cada 50 anos.

Somos sempre pessoas conversando. Que tal começarmos a prestar atenção um no outro?

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4 Responses to “Por uma política mais subjetiva.”

  1. Claudio Daylac Says:

    Tuka,

    Acho perfeitas suas análises iniciais, mas discordo do final do post.

    Não acho que política é fé. Acho que trata-se de uma ordem de prioridades diferentes, inerente a cada ser humano, mas que pode ser explicada de maneira racional através de personalidade, ambiente, etc.

    Concordo, entretanto,ser impossível uma discussão racional entre pessoas de posições políticas distintas, por não partirem das mesmas premissas.

    Um beijo e um queijo.

    • arturbenchimol Says:

      Oi Claudim, obrigado pelo comentário.

      Nem eu acho que a política seja fé. Acho que ela tem elementos subjetivos e, portanto, devem ser notados e não ignorados. Não pretendo excluir a razão do debate, mas pretendo humanizar o debate a partir de uma mudança de foco. A ilusão é que a vida é essa coisa que pode ser completamente medida. Muito dela nos escapa e muito dela é diferente para cada um. Estamos nos conversando, mostrando o que somos e sentimos. E quanto mais conscientes disso, melhor. Porque podemos nos responsabilizar pelos nossas opiniões (e sentimentos) em relação aos pobres, à justiça, às nações, às fronteiras, etc, etc, etc.

      Não são somente os fatos. Somos nós percebendo os fatos.

  2. Alejandro Cozachcow Says:

    Estoy muy de acuerdo con tu reflexión! es muy parecido a lo que pasa en argentina.
    un abrazo!

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