As “Primaveras” e as Mídias Sociais

uma reflexão política e antropológica

 

O CAUSO

Nunca vou me esquecer do dia em que encontrei um egípcio numa festa em Amsterdam. Ele vinha visitar um outro amigo que iria participar do mesmo programa de pós-graduação que eu. E como se tratava da festa de despedida da turma anterior, resolveu se juntar à celebração.
Costumo ter facilidade com egípcios em geral. Digo que minha mãe é egípcia (minha mãe nasceu no Cairo) e rapidamente passamos a conversar sobre comida e palavrões. Obviamente omito o fato de que minha família materna foi expulsa por serem judeus, e também meu judaísmo, porque, afinal, tento sempre começar com o que temos em comum.
Naquele dia específico a estratégia ia bem e eu tinha muitas dúvidas sobre o Egito. Era o fim da primavera de 2011 e eu andava assustado com a violência que acontecia no país do meu mais novo conhecido. E perguntei: Lhe questionei, cauteloso, sobre como se sentia de seu país estar em alvoroço.
Eu imaginava uma série de reações: talvez um orgulho esperançoso, quem sabe um pouco de consternação por conta da violência, mas o que eu recebi me surpreendeu completamente.
Ele me disse, como quem me ameaçasse: “Você sabe, no Egito, se mexer com a gente, o negócio fica doido… Sangue escorre pelas ruas…”
Olhei ao meu entorno. Estávamos em Amsterdam, a capital da tolerância européia, onde meu colega podia usufruir de inúmeras liberdades civis e sexuais permitidas pelo seu (provável) privilégio de poder arcar com uma passagem aérea. Fiquei olhando aquilo tudo: a cerveja geladinha que ele segurava na mão, as meninas com as quais ele flertava (sem muito talento, vou confessar), o clima cosmopolita entre nossos amigos de todos os cantos do mundo…
E ele me olhava como se os embates sangrentos com a polícia fossem o melhor dos mundos. Como se a brutalidade e a irracionalidade em massa fossem motivo de orgulho. Tinha um quê de “cuidado comigo”.
Eu tive que responder. Disse: “Pois é, eu prefiro a vida num país como a Holanda, tolerante.” Aqui, se você for violento, vai preso pelo resto da vida.” E, claro, olhei nos olhos da fera.

QUESTIONAMENTOS

Esse momento me trouxe uma variedade de questionamentos. A começar pelo fato do árabe ter se transformado em vítima de seu próprio esteriótipo. Os video games de tiro com suas equipes bem definidas e os filmes de mocinhos anglo-saxãos procurando árabes cruéis acabam assimilados por essa população que encontra, mesmo que absurdamente, na violência uma válvula de escape para um orgulho humilhado.
Depois disso, me veio à mente a relação de fetiche desse indivíduo com a violência em sua cultura. Nosso colega não era um brutamontes. Pelo contrário, do pouco que me lembro, era um rapaz de óculos e um pouco acima do peso. Nas ruas de São Paulo não significaria nenhuma ameaça à pessoa alguma. Mas, ao meu lado, ele se sentia a personificação da ameaça perfeita. Bastava eu mexer com o seu lado “passional”,”bárbaro”. Isso lhe dava um prazer quase infantil.
Esse é o real risco de quando fundamentalismo religioso transborda para a mundo da política. Sabemos que o paradigma da fé estabelece um limite para a razão, mas quando misturamos a fé com o Estado, estamos correndo o risco de revisitarmos inúmeros preconceitos e uma violência que acreditávamos extinta há 500 anos.
Também percebi o quanto o meu amigo se aproveitava de um paradoxo de relativismo cultural para “estabelecer” o seu “barbarismo”. Sabia que estava em Amsterdam, entre gente educada, e que poderia falar o que quisesse sem ser reprimido.
O que ele não imaginava é que tinha outra pessoa de origem árabe ali, pronto pra contestar a atitude dele.
Ele ficou ofendido com o meu comentário. Eu, que na cabeça dele era outro árabe, tinha deslegitimizado o orgulho dele. Tinha interrompido o prazer dele de ser violento. A conversa esfriou e fomos cada um para o seu canto.

E O TWITTER COM ISSO?

Ando lendo bastante sobre os acontecimentos na Turquia. Tenho uma análise rasa, para ser sincero. Mas uma coisa eu acho que posso dizer a partir do encontro com aquele egípcio em Amsterdam:

Em uma população antagonizada pelo ocidente como o mundo árabe/muçulmano, aberta às mais diversas manifestações violentas por conta de precedentes culturais (sem entrar no mérito deles), explorada por séculos por regimes abusivos e totalitários, não é de se assombrar que as mídias sociais sejam como fogo de palha para esse protestos.

Vê-se a facilidade com a qual essas primaveras acontecem. A população se mobiliza com facilidade ímpar. Duas primaveras depois, falta saber se um dia veremos as flores ou se ficaremos só com a chuva de sangue.

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